Uma pesquisa realizada em parceria entre cientistas e pescadores do Complexo Estuarino-Lagunar de Iguape, Cananéia e Ilha Comprida revelou um cenário que preocupa especialistas em biodiversidade. Entre 2015 e 2025, foram registrados pelo menos 90 exemplares do camarão-gigante-da-malásia (Macrobrachium rosenbergii), espécie exótica originária do Sudeste Asiático.
O monitoramento contou com a colaboração de 25 pescadores locais, que informaram os pontos de captura e forneceram os exemplares para análise científica.
O dado mais preocupante, segundo os pesquisadores, não é apenas a presença da espécie invasora, mas a comprovação de que ela pode estar se reproduzindo naturalmente nos ecossistemas do litoral sul paulista.
Durante o estudo, foram identificadas pelo menos cinco fêmeas carregando ovos, capturadas em áreas de Iguape e Cananéia.
De acordo com o pesquisador Edison Barbieri, diretor do Núcleo Regional de Pesquisa do Litoral Sul do Instituto de Pesca, a descoberta representa um marco importante na avaliação da invasão biológica.
"A simples captura de indivíduos não comprova que a população esteja estabelecida. Entretanto, a presença de fêmeas carregando ovos demonstra que o ciclo reprodutivo está ocorrendo no local", explicou o pesquisador.
A constatação reforça a hipótese de que a espécie já esteja estabelecida na região e não dependa mais exclusivamente de escapes de criadouros para permanecer no ambiente.
Especialistas alertam que espécies invasoras podem causar impactos significativos nos ecossistemas naturais.
Entre os principais riscos apontados estão: Competição com espécies nativas por alimento e abrigo; alteração da cadeia alimentar; redução da biodiversidade local; transmissão de vírus, bactérias e parasitas e impactos na pesca artesanal e nos recursos pesqueiros
O Complexo Estuarino-Lagunar de Iguape-Cananéia-Paranaguá é reconhecido internacionalmente por sua importância ecológica e abriga uma das áreas de maior biodiversidade da Mata Atlântica brasileira.
O camarão-gigante-da-malásia foi trazido ao Brasil em 1977 para atividades de aquicultura e cultivo comercial.
Conhecida pelo rápido crescimento e grande porte, a espécie se tornou uma alternativa econômica para produtores, mas seu escape para ambientes naturais passou a preocupar pesquisadores em diferentes regiões do país.
Alguns exemplares podem atingir mais de 30 centímetros de comprimento, tamanho muito superior ao de várias espécies nativas encontradas nos estuários brasileiros.
Os pesquisadores destacam que o acompanhamento contínuo da espécie será fundamental para compreender seus impactos sobre os ecossistemas de Iguape, Cananéia e Ilha Comprida.
A participação dos pescadores tem sido considerada estratégica para identificar novas ocorrências e ampliar o monitoramento ambiental na região.
Enquanto os estudos avançam, a presença do camarão-gigante-da-malásia reforça os desafios enfrentados na preservação dos ambientes costeiros e da rica biodiversidade do Vale do Ribeira.