Por Marcelo Begosso
Debaixo de poucas dezenas de centímetros de terra, séculos da história econômica do Brasil permaneceram preservados em Iguape. Escavações arqueológicas realizadas na área do atual Museu de Iguape, no Vale do Ribeira, identificaram vestígios associados a uma antiga oficina de processamento e fundição de ouro, trazendo evidências materiais da atividade mineradora desenvolvida na região durante o período colonial.
Os achados reforçam a importância histórica de Iguape no início da exploração aurífera em território paulista e ajudam pesquisadores a compreender como funcionavam o processamento, a fiscalização e a circulação do metal precioso muito antes do auge da mineração em Minas Gerais no século XVIII.
Segundo estudo publicado na Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (USP), as escavações alcançaram um antigo nível de ocupação a aproximadamente 60 centímetros de profundidade.
Nesse estrato foram identificados materiais relacionados à atividade metalúrgica. Entre os vestígios estão fragmentos de cadinhos, escórias, carvão, peças metálicas e cerâmicas, formando um conjunto arqueológico capaz de revelar detalhes das técnicas utilizadas no processamento de metais.
Um dos objetos que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi um cadinho de grafite. Esses recipientes suportavam temperaturas elevadas e eram utilizados em operações de fusão e refino.
Para determinar o que havia sido processado no local, materiais encontrados durante as escavações foram submetidos a análises especializadas.
Exames realizados com participação do IPEN-USP identificaram vestígios de ouro em materiais associados ao sítio, incluindo o cadinho e fragmentos cerâmicos, fornecendo evidência científica de atividades relacionadas ao processamento do metal precioso naquele espaço.
A descoberta transforma objetos aparentemente simples em importantes documentos arqueológicos. Cada fragmento ajuda a reconstruir uma atividade econômica que teve papel relevante na formação histórica de Iguape e do Vale do Ribeira.
A cronologia exata é um dos pontos que exigem cuidado.
Há referências que relacionam a implantação da estrutura ao período de 1630 a 1632, enquanto documentação histórica também registra informações posteriores, incluindo 1653. As diferenças entre evidências arqueológicas e documentais alimentam o debate acadêmico sobre a instalação e as diferentes fases de funcionamento do complexo.
Registros estudados indicam ainda que as atividades relacionadas à estrutura se estenderam pelo período colonial, com referências ao seu encerramento por volta de 1760.
Por isso, mais do que estabelecer uma única data, a arqueologia permite acompanhar as diferentes etapas de ocupação e utilização daquele espaço.
A descoberta amplia a percepção sobre o papel do Vale do Ribeira na história econômica brasileira. Muito antes de cidades mineiras se tornarem símbolos do ciclo do ouro, rios e territórios paulistas já eram percorridos em busca do metal precioso.
Iguape ocupava uma posição relevante nesse cenário, ligada não apenas à exploração e circulação do ouro, mas também aos mecanismos coloniais de controle e tributação.
Hoje, o que permaneceu enterrado durante séculos ajuda a reconstruir esse passado.
Mais do que ouro, as escavações de Iguape trouxeram à superfície um pedaço da própria formação econômica do Brasil — e mostraram que o subsolo do Vale do Ribeira ainda tem muitas histórias para contar.